Pelas terras de Cabral

Por Márcia Klein

 

Eu confesso que quando decidi vir pra Portugal, após quase três anos de Europa, eu vim seguindo o sol, e esperando matar um pouquinho as saudades do Brasil. E não é que dá para matar um pouco das saudades. Portugal, que tem tanto a ver conosco! E de onde quase podemos enxergar a nossa terra, se ficarmos bem na pontinha dos pés no extremo da península, de frente para o Atlântico, que é tudo que nos separa…

Cascais
Carro de fado
Centro Vasco da Gama
Amália Rodrigues em Alfama
Basílica da Estrela

E apesar de ter estado aqui brevemente há cerca de 3 anos, e ter gostado muito do que vi, eu não havia ainda tido uma experiência de não-turista. Agora, em meu objetivo de viver como uma local, eu experimento situações cotidianas. E se sobressai a maior qualidade de Portugal, ainda além de seu clima agradável, das lindas paisagens, e de sua gastronomia apurada e farta: a gentileza e a flexibilidade do povo português!

Esse país tão pequeno, que tem menos habitantes que a cidade de São Paulo, se tornou um império gigantesco através do desbravamento dos oceanos e do desconhecido, driblando seu acesso restrito ao continente, e aproveitando então seu grande litoral. A luta pela sobrevivência foi o guia em tantas empreitadas, algumas mais bem sucedidas que outras, mas que em todas elas se fez notar a capacidade de adaptação desse povo, que emigrou para as colônias conquistadas, integrou-se, e em parte voltou para a sede do antigo império, trazendo também muitos nativos das colônias, estas agora independentes.

Como se repete nas histórias dos grandes impérios através do mundo, e o português certamente foi um dos maiores deles, a alternância entre os tempos de fartura e escassez ensinam grandes lições, e esse povo teima em não ser abatido. Levanta, sacode a poeira, e tem dado a volta por cima, e o país é hoje um ímã para turistas e investidores de todo o mundo. Mas o que impressiona mesmo é a gentileza, que se faz presente em cada momento e circunstância: no ônibus (aqui autocarro), onde os locais cuidam para que o recém-chegado não perca a parada sobre a qual pediu informação, na rua, na pastelaria (lanchonete), na fila do supermercado, na repartição pública…

 

Estação Ferroviária do Rossio

É um povo reservado, mas muito bem educado, e que demonstra uma alegria genuína em ajudar. Chegando aqui como brasileira ainda encontro algumas diferenças significativas entre o português falado no Brasil e em Portugal, mas nada que os portugueses não façam todo o esforço para compreender, e principalmente, lidar com muita leveza e bom humor. Não há problema,
tudo se resolve!!

Praça do Comércio

O resultado é uma estada tão agradável, entre camaradagem, boa comida, vinhos, e a paisagem estonteante mista de sol, céu azul, rio e mar, e uma arquitetura pra lá de charmosa, com muita história pra contar. Não admira que se encontre tantos brasileiros na terrinha, assim como ingleses, alemães, franceses, chineses… isso sem falar de tantos outros pré-colonos de Portugal, como os africanos, que já estão há bem mais tempo do que nós brasileiros aqui, e plenamente incorporados à população, assim como os imigrantes que formaram o Brasil hoje já são acima de tudo brasileiros. Portugal se reconhece e se declara, por toda a sua história, um país de emigrantes, e justamente por isso chama bem vindos aos imigrantes e visitantes. Dá pra sentir na pele!

Foto do topo: Campo dos Martíres da Pátria

Marcia Klein é uma apaixonada por cidades e diferentes culturas, que foi fazer um Mestrado sobre desenvolvimento urbano sustentável em Londres, e de lá teve a oportunidade de conhecer algumas metrópoles da Europa. Vive atualmente em Berlim, na Alemanha. 

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