O mercado corporativo e as mães empreendedoras

Por Andréa Giugliani Negrisolo
Fotos: Arquivo pessoal

Fato que me chama a atenção no Tricotando Negócios é o grande número de cases de sucessos de mulheres que empreenderam após a maternidade. Contudo, confesso que antes de me tornar mãe, esse fato para mim era apenas um fato; uma constatação e nada mais.

Mas agora que a maternidade adentrou em minha vida, vejo essa questão com mais profundidade. Comecei a avaliar o que leva tantas mulheres a abandonar a carreira corporativa e tomar a corajosa decisão de empreender após tornarem-se mães.

E essa análise veio dia desses, quando numa quinta-feira ensolarada, sai da minha casa no ABC Paulista bem cedo, deixei meu filho na casa dos meus pais e me desloquei, animada, para a região da Berrini, na Grande São Paulo para um curso de marketing para escritórios de advocacia em que havia me inscrito.

Estava tranquila por saber que meu bebê estava com pessoas de total confiança e assim, pude aproveitar muito bem o treinamento com colegas e professores incríveis que compartilharam conhecimentos de marketing para a advocacia muito relevantes.

Tudo ia bem, quando no final da tarde, começou o sufoco: meus peitos começaram a inchar e doer (porque ainda estou amamentando); a saudade do bebê começou a bater forte e com ela a preocupação se tudo estava bem e se eu havia feito a coisa certa e a dúvida de ter perdido algum acontecimento ou algum movimento novo dele.

Minha cabeça começou a fervilhar e a vontade de sair correndo do curso chegou fervorosamente. Porém, estávamos no pico do horário do rush e o trânsito já se fazia presente, como pude denotar daquelas milhares de luzes de freio vermelhas dos carros engarrafados na Marginal Pinheiros, vistas do alto do prédio. Conclusão: não conseguiria chegar em casa em menos de duas horas, aliás, me disseram que apenas para sair daquele populoso edifício, naquele horário, poderia se levar até 40 minutos.

A angústia se fez presente! Foi ai que comecei a perceber como seria se eu tivesse que ter aquela vida todo dia! De enfrentar horas e horas no trânsito, de ter que deixar o meu filho em uma escola em tempo integral e não participar da rotina dele. De ter que enfrentar o dia a dia do universo corporativo; de chegar em casa correndo para amamentar, com medo de que ele dormisse antes, de ter que dar banho, jantar e colocar para dormir, ou ter que fazer hora extra e perder todos esses momentos.

E ainda, pensei que poderia ser pior, eu poderia estar dentro de um meio de transporte público, arrebatadamente cheio, com pessoas cansadas e mau humoradas, sem lugar para sentar, o que pioraria o cenário com as temidas chuvas de Março/Abril fechando o verão.

De outro lado, lembrei-me da sorte que eu tenho de ter meu próprio negócio; de ter liberdade de horário, flexibilidade de trabalhar na minha casa (home office) ou no escritório e ainda, nesse, de poder levar o meu bebe. O privilégio de ter pessoas para cuidarem do meu filho, de ter uma ajudante no lar, de ter um esposo que é participativo no dia a dia do nosso bebê.

E foi ai que eu percebi uma das principais razões que muitas mulheres abandonam suas carreiras corporativas para empreender após a maternidade. Elas gostariam sim de trabalhar, se continuarem com sua carreia, sua profissão ou criar um novo negócio; o que deixa tudo complicado é na verdade o ecossistema em que o mercado corporativo está inserido e as regras fixas e igualitárias aos homens na carreira.

O mercado corporativo é mesmo cruel com as mulheres. Por um lado, ter que deixar o filho com 4 ou 6 meses de vida para voltar a trabalhar é muito duro; tanto para a mãe, como para o bebe. De outro lado, para uma empresa ficar tanto tempo sem a mãe profissional, também não é tarefa fácil. Sem falar nas necessárias viagens, reuniões fora do horário de expediente, trabalho aos finais de semana e a noite em casa, além de eventos e cursos e treinamentos corporativos.

Parece que esse essa situação não está equilibrada. Que a “conta não fecha”. Acredito que é por essas e outras razões que tantas mulheres resolvem empreender após a maternidade.

Mesmo assim, pensei em algumas situações que acredito serem plenamente possíveis de termos na vida profissional corporativa e que não diminuiriam em nada o potencial dessas mulheres no mercado de trabalho: horários flexíveis (para se escapar do rush); creche dentro das empresas permitindo que as  mulheres tivessem um contato com seus filhos no meio do expediente e horário de almoço ou café,  home office semanal de pelo menos 1 vez por semana, para que pudessem trabalhar de casa, não pegar transito e ainda tivessem um período maior de tempo com seus bebes; espaço privativo para bombear leite e estocar com segurança, enfim, algumas ideias que poderiam ser incorporadas no dia a dia corporativo e que minimizassem a crueldade dessa relação com as mulheres.

E ainda seria ideal e quase utópico se as mães conseguissem residir próximo do trabalho. Fica muito complicado ter que passar pelo menos duas horas por dia no trânsito, quando poderia estar ao lado do seu filho ou fazendo algo para si mesma, como ginastica, massagem, ou até mesmo cuidando da casa e da família.

Enfim, esse único dia me fez refletir sobre todas essas questões ao sentir na pele essa situação, me fez me sentir grata por ter empreendido no meu negócio anos antes de me tornar mãe e ainda me fez passar a admirar ainda mais nós mulheres que somos guerreiras em tentar manter a carreira profissional, ser CEO, CFO, ou outro C-Level e ainda conciliar o dia a dia de mãe, esposa, dona de casa e mulher.

 

Andrea Giugliani Negrisolo, advogada tributarista sócia do Giugliani Advogados, esposa, mãe de 8 bichos e do Lui. Apresentadora do Programa de TV Tricotando Negócios, Diretora de Internacionalização de Negócios do ITESCS,  CEO da Startup Link Us Now e do Coworking Incubeos.  https://www.facebook.com/tricotandonegocios
Instagram: @tricotandonegocios

Artigo revisado por MAP Marketing de Conteúdo – www.mapcomunicacao.com.br

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