Ela encontrou o amor após descobrir o câncer de mama

Por Maria Cláudia Aravecchia Klein
Fotos: Acervo pessoal

Bem que essa história poderia ter sido escrita por John Green, o autor do bestseller A Culpa é das Estrelas  Mas, não. O caso é real e aconteceu com Sandra Buglio. Ela é advogada e auxiliar administrativo da área de licitações da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).

Em 2017, aos 45 anos de idade, Sandra detectou pelo autoexame que havia um corpo estranho na mama esquerda. A mamografia não acusou nada, porém, o médico achou melhor fazer uma biópsia. “Esse alerta vale para todas as mulheres, afinal, foi com esse exame que descobrimos o carcinoma, o câncer. Ou seja, muitas vezes não basta fazer o ultrassom e a mamografia para ter o diagnóstico correto”, explica.

“A primeira coisa que pensei foi: ‘vou morrer’. Meu pai morreu recentemente vítima de câncer e agora é a minha vez! Foi desesperador para toda minha família, que praticamente ainda estava de luto. É o tipo de ficha que demora para cair, sabe! Ainda mais, porque havia acabado de conhecer um cara super interessante e a primeira coisa que pensei foi: esquece o namoro, pois vou ficar magra, feia e careca. Não quero namorar de jeito nenhum. Contei pra todos a minha volta, inclusive pra ele. Não escondi nada de ninguém. Pedi que ele se afastasse, pois queria ficar sozinha”, desabafa.

Porém, Walter continuou a trocar mensagens de whatsapp com Sandra e passou a visitá-la sempre que encontrava uma brecha. “Ele aparecia em casa e eu me questionava: ‘será que ele não entendeu que eu não quero namorar, vou ficar feia, meus cabelos vão cair. Não vou estar no clima, sem condições’. Até que chegou a Páscoa e ele me levou um ovo lindo e disse que iria ficar. Estamos juntos até hoje”, conta ela.

No whats, Sandra está no mesmo grupo de mulheres do qual faz parte a cantora e apresentadora Sabrina Parlatore, e lá é muito comum ela se deparar com histórias de mulheres que foram deixadas por seus parceiros durante o tratamento. “Comigo aconteceu o contrário: arrumei um namorado ao mesmo tempo em que descobri que estava com câncer. Louco, né? Perto das ‘estatísticas amorosas’ é um caso raro, raríssimo. Ele veio por encomenda, foi a pessoa que sempre procurei”.

Com as enfermeiras do Centro Oncológico de São Caetano do Sul no último dia de quimioterapia e vestida de mulher maravilha, claro

Outra surpresa na descoberta da doença foi ter que fazer o tratamento pelo SUS. “Foi na época de transição de convênios e me assustei com a ideia de fazer tudo pelo centro oncológico público. Mais uma vez, fui surpreendida pelo destino. Coisas que só Deus explica! Do atendimento inicial, acompanhamento médico, sessões de quimioterapia, radioterapia até os remédios e injeções caríssimas, tudo, tudo foi impecável, eficiente e rápido. Não tive problema algum. Com essa economia pude planejar o uso daquela touca hipotérmica, muito gelada, que evita a queda de cabelos. Consegui alugá-las em São José dos Campos, então, era uma logística absurda. Algum familiar viajava até lá para buscar as toucas, uma amiga, a Débora, ia atrás de gelo seco nos dias das sessões. O tratamento consiste em usar a touca a uma temperatura de -10°C. E, para a região permanecer gelada, é necessário trocar a touca a cada meia hora. Aguentei até a terceira sessão de quimio vermelha. Para quem se adapta e enfrenta os incômodos, o uso da touca funciona muito bem e evita a perda total dos cabelos”.

As muitas maneiras que Sandra aprendeu para usar lenços e faixas no cabelo com a prótese capilar

Antes que seu cabelo começasse a cair, Sandra optou por um corte chanel e guardou o excedente das madeixas. Procurou um profissional especializado em prótese capilar e pediu a confecção de uma do jeito que ela queria, muito similar ao corte anterior à queda, inclusive, com a risca natural do cabelo. O investimento ficou em torno de R$ 2 mil reais. “A prótese ficou perfeita e muita gente não acreditava que o cabelo não era meu. Agora, meu cabelo está na altura da orelha e estou de mega hair, com meu próprio cabelo, aquele que guardei. Olha como rendeu. Era uma cabeleira só!”.

Final do tratamento no Centro Oncológico de São Caetano

“Em relação aos sintomas, passei muito mal. Nas quimioterapias vermelhas, tinha a sensação que ia morrer. São muito fortes. Segui todo o protocolo, porém não parei de trabalhar. Isso foi primordial para a minha recuperação. Do reitor à toda a equipe mais próxima da USCS, todos me apoiaram e entenderam o quanto era importante continuar o trabalho nesse período. Tanto que hoje, a maioria veste alguma peça rosa em comemoração ao Outubro Rosa, ou seja, literalmente, abraçaram essa causa”, relata ela que, terminou as sessões de radioterapia em março de 2018 e está na fase de exames de controle.

Na última sessão de quimio, vestida a caráter

Sandra lançou uma campanha, – entre familiares e amigos, – de usar algo rosa durante a segunda quinzena de outubro. Eu, ‘Maria Cláudia’, quase chorei ao ver a roupa dos seus colegas de trabalho no dia em que a visitei na universidade. Coisa linda de se ver!

Foi difícil segurar o meu choro nessa hora. Equipe do trabalho de rosa junto com a Sandra!

Muito vaidosa, além de ter optado pelo corte mais curto e pela prótese, Sandra foi em busca de conhecimento para aprender, por exemplo, técnicas de maquiagem para mulheres em tratamento de câncer. “O pós mastectomia e quimios não é fácil. Nada é nada fácil. Os pelos caem, incluindo os cílios e as sobrancelhas. Nas primeiras semanas, você desanima, se sente fraca, não tem vontade de fazer nada, sem contar na autoestima baixa. Mas, como eu estava de namorado novo e queria estar bem para poder trabalhar, fiz até curso de #makeup oncológico. Sério, isso existe! Pois, aja maquiagem para cobrir os resquícios do tratamento. Durante a quimio, a pele do rosto fica muito branca. No curso, descobri vários truques não só de maquiagem, como do uso dos lenços e faixas, grandes aliados nessa fase. Fiquei até estilosa, o que ergueu a minha autoestima, a minha feminilidade”.

Com o amado Tio Claudio, que cuida da imunidade de Sandra com sucos e vitaminas naturais, sua mãe e sua prima

“Não quero esquecer nenhuma fase. Sinto, que hoje, a minha missão é ajudar as outras pessoas. E como quero ajudar, porque vou esquecer de tudo que eu passei? Conheci tanta gente legal, cada enfermeira, cada vizinha de quimio, e fiz muitos amigos no centro oncológico. As enfermeiras passaram a me chamar de ‘mulher maravilha'”, observa essa heroína que tem todo o amor e suporte de uma verdadeira liga da justiça, em casa:  mãe, irmão, irmã e namorado.

Graças ao carinho dos irmãos e da mãe, ela enfrentou a batalha e venceu!

Para finalizar, Sandra deixa uma mensagem: sempre tive fé. Só que hoje ela é grandiosa. Minha fé é enorme, imensurável!!! 

A última estimativa apresentada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) mostrou que, para 20018, o número de casos de câncer de mama no Brasil poderá atingir a marca de 59.700 pacientes. Por isso, previna-se, faça o autoexame das mamas e visite constantemente o seu médico.

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