A descoberta do câncer de mama na gravidez

Por Claudia Souza Lima
Fotos Acervo Pessoal

Eu estava com oito meses de gestação quando apareceu um caroço na parte superior da mama esquerda. As pessoas diziam que era leite, devido a gravidez estar na etapa final, porém sentia que não era, ele era palpável e duro. Não doía, aliás “eles” não doem, por isso, muitas pessoas descobrem em estágio avançado.

Marquei uma consulta com minha ginecologista e ao me examinar, percebi que ela ficou estranha e com um olhar apreensivo, foi aí que percebi que não era tão simples. Mesmo assim ela pediu para que eu aguardasse até a bebê nascer, pois caso fosse necessário tomar algum medicamento, poderia interferir no leite.

Fui para casa e passados alguns dias o caroço sumiu. Passaram 08 meses aos o nascimento da minha filha, ela mama muito e eu tinha muito leite, mas um dia o caroço apareceu novamente e passado uma semana percebi que a pele do meu seio estava repuxando, então liguei para minha ginecologista onde expliquei a situação. Ela me informou que como agora a Emilly estava bem, seria hora de investigar o que estava acontecendo e solicitou alguns exames.

Marquei o médico e fui realizar uma ultrassonografia, quando me deitei e a medica colocou o aparelho ela me perguntou se tinha filhos ou se pretendia ter, respondi que tinha uma filha de oito meses e ela perguntou se eu ainda amamentava, quando respondi que sim.

Ela parou o exame e olhou em meus olhos e foi bem direta: “Olha Claudia com a experiência que tenho, infelizmente acredito que você esteja com câncer, porém peço a você que solicite para sua médica um encaminhamento para uma biopsia o mais rápido possível para identificar o grau e saber se é benigno ou maligno.”

Eu olhei para ela e passou um filme em minha mente, porém não chorei, na verdade fiquei pensando como iria dar a notícia para meu esposo que estava lá fora aguardando e para toda minha família que tem um carinho enorme por mim.

Ao sair do consultório falei para ele: “Alan a médica suspeita que seja câncer de mama, porém temos que realizar uma biópsia para ter certeza.  Não sei se ele entendeu direito ou se não quis demostrar aflição”.

Em casa decidi que só falaria para a família se fosse constatado o diagnóstico. O Alan concordou com a minha decisão.

Ao retornar na Drª Lilian ela olhou a ultrassom e me direcionou para o irmão dela que era oncologista e ficava no consultório ao lado. Ele, ao abrir o laudo, informou que realmente se tratava de câncer, porém precisaríamos ter certeza que era maligno, pois o formato desfocado e com lados irregulares caracterizava um câncer maligno, pois os arredondados normalmente são benignos. Questionei sobre a probabilidade de sobrevivência, onde ele explicou que de 100 mulheres, 22 sobreviveriam com a doença do nível na qual eu estava.

Eu e o Alan saímos dali calados, acredito que ele não sabia o que fazer ou o que falar. Ele me abraçou forte e fomos para casa ficar com a nossa filha.

A biópsia foi realizada no IBCC Oncologia. O médico que iria me examinar e colher a amostra me explicou com muito carinho que tem pessoas que sentem muita dor, porém ao iniciar o exame ele foi bem claro explicando que com a experiência que tinha, realmente se tratava de um câncer maligno.

Quando recebi o diagnóstico e a confirmação do médico, tive certeza que muita coisa iria mudar. Fiquei um pouco indignada, pois sempre fui uma pessoa muito boa, sempre ajudava qualquer pessoa que precisasse de ajuda independentemente se a conhecei ou não, e agora eu estava ali, com uma doença que só de falar a pessoa já pensa que vai morrer. Pensei na minha filha e me perguntei: “E agora como será? Será que vou vê-la crescer? E minha família, minha irmã que tanto amo e somos tão unidas, meu irmão, como eles vão ficar e minha mãe? Como vou dar a notícia?

Depois parei, pensei, falei pra mim mesma: que não poderia morrer, tinha muita coisa que não havia feito ou conquistado. Tinha uma família e seria forte, pois tenho que cuidar deles. E foi isso que coloquei na minha cabeça, sem falar que Deus sempre foi fantástico comigo, sempre esteve ali do meu lado, mesmo que eu não o vejo, sabia que estava ali para me confortar.

O primeiro médico que me atendeu era meio negativo e isso me incomodou, então conheci o Dr. Antônio Cavaleiro, este verdadeiro anjo apareceu na minha vida. Ele é sensível e sabe tudo que iremos passar. Em nossa primeira consulta ele me explicou direitinho como seria meu tratamento, as fases que iria passar e os pontos negativos que poderiam acontecer.

Ele informou que infelizmente meu cabelo iria cair e recomendou que diminuísse o tamanho dele, porém eu pensei: “Gente, o meu maior medo da vida era ficar careca, não gostava nem de pensar na possibilidade”, mas ele tão generoso me falou que eu era bonita, tinha um rosto bonito e logo ele cresceria novamente. E o Alan sempre ali do meu lado.

A notícia abalou toda a família, eles não se conformavam, pois sempre fui muito para cima e animada. Eu, por outro lado nunca me abalei com esta notícia, acredito que estamos aqui por algum motivo, que passamos por certas coisas para evoluirmos e mostrar para outras pessoas que podemos mudar e aprender alguma coisa.

O Dr Antonio informou que nosso tratamento seria primeiro a quimioterapia e em seguida a cirurgia, sendo assim iriamos iniciar o tratamento o mais breve possível.

Como eu não sabia se iria sobreviver a esta fase da vida, resolvi fazer a festa de aniversário de 1 ano da Emilly, foi tudo muito lindo, perfeito onde chamei todos amigos e familiares, a maioria não sabia ainda da doença e isso foi bom, pois todos estavam muito felizes de nos reunir.

Fui ao hospital Santa Catarina – SP para realizar a primeira quimioterapia. Iriamos começar pela BRANCA que é um pouco mais suave e não deixa a pessoa tão debilitada. Ao todo foram 23 seções de quimio Brancas e 4 Vermelhas.

A enfermeira me explicou como era o procedimento que demoraria 4 horas. Eu tomava muitos medicamentos antes da quimioterapia, isso porque temos que proteger o fígado e outros órgão devido a agressividade do procedimento.

Neste momento e enquanto a enfermeira estava preparando os medicamentos, tive uma conversa com Deus, pedi a ele que não queira sentir enjoo, que não queria ficar muito magra e não queria sentir dor. Quando fosse para sentir algo eu gostaria de ter muito sono e dormir o tanto que fosse necessário até o efeito passar. Pois ele me ouviu, nunca senti nada com a quimioterapia, absolutamente nada, como ela era aplicada toda semana com o intuito de diminuir o tumor, a carga de medicamento era forte. Dor no corpo era normal, as vezes não levantava da cama, eu brincava com meu esposo e dizia que fui para a balada e dancei a noite toda, que estava quebrada…kkk.

Na segunda semana quando acordei tinha uns fios de cabelo no travesseiro e eu sabia que o momento havia chegado, que meu cabelo estava começando a cair. Quando puxei ele saiu na minha mão e isso me fez chorar pela primeira vez. Para mim foi mais doloroso que a notícia da doença, pois meu cabelo sempre foi lindo, parecia de mentira, os cachos sempre definidos. Ele encantava todo mundo inclusive, eu.

Alan teve que voltar em casa e me viu chorando na sala e para me animar disse que iria raspar a cabeça, mas ele já era careca e começamos a rir juntos.

Neste mesmo dia decidi cortar o cabelo. Lavei ele, fiz todo o ritual e fui trabalhar, me lembro que naquele dia, todos elogiaram meu cabelo e falei para os mais chegados o que estava acontecendo. Eles ficaram chocados principalmente quando disse que iria cortar meu cabelo naquele dia. E assim foi, no final da tarde o Alan foi me buscar e fomos para a Galeria do Reggae (local onde as pessoas comercializam cabelos e perucas).

Fui atendida por um profissional chamado Lucas (Lucas Perucas), onde expliquei a situação e disse que queria fazer uma peruca do meu cabelo, ele disse que cortaria cachinho por cachinho para que a peruca ficasse igual ao meu cabelo, do jeitinho que era e é hoje. De repente minha sobrinha chegou, minha prima chegou e todas estavam ali para me apoiar, fiquei feliz, pois elas sabiam o que eu estava sentindo.

Como o Lucas estava sozinho na loja, ele cortou meu cabelo no meio da loja e, aos poucos, os corredores começaram a encher de gente. Eles não entendiam o que eu estava fazendo, pois todos que vão ali querem comprar cabelo e o meu era perfeito. Por que eu estava cortando?

De repente eu comecei a ver meus cachos em cima do balcão, passei a mão no cabelo e todo aquele volume havia sumido. Isso me deixou desanimada, mas era necessário, pois aquela imagem das falhas no cabelo é muito triste para que tem e para quem vê. Eu não queria deixar minha família triste e eu não iria me torturar assim.

Ao fim do corte deixei os cabelos para a confecção da peruca e fui embora. Assim que sai uma moça veio perguntar porque eu estava cortando meu cabelo, onde expliquei o que iria acontecer e ela até chorou. Me abraçou e disse que eu teria que ser forte.

Quando cheguei em casa, achei que minha filha não iria me reconhecer, porém ela me chamou de mamãe e isso me deu mais força ainda. No mesmo dia, ouço a voz da minha irmã e ela estava com o cabelo curto igual ao meu. Ela me abraçou e disse que sempre estaríamos juntas assim como Telma e Louise. Eu chorei, ri e assim terminou aquela noite.

Ao fim da quimioterapia realizei a cirurgia e foi identificado que tinha dado micro metástase na axila, onde após 15 dias tive que voltar para a mesa de cirurgia para esvaziar as axilas.

Realizei 35 sessões de radioterapia, tive problemas com a radio e tive que colocar um marca-passo, pois deu interferência na parte elétrica do coração.

Tive dengue no meio do tratamento e fui parar na UTI, onde quase não voltei, mas minha meta não havia sido cumprida e queria voltar.

O tratamento durou  um ano e meio. Ainda cuido do meu coração também e tomo meus remédios diários, além de uma injeção a cada 28 dias.

Maior aprendizado? 

Meu aprendizado foi que tudo passa, esta doença não era minha, ela simplesmente chegou, mas não ficou.

Acredito que o tratamento é 50% medicamento e 50% mente. Não podemos mentalizar que vamos morrer. Diante disso temos que viver intensamente, pois não sabemos até quando vamos durar. Se antes eu já amava a vida, agora então sou fascinada por ela. Quero aproveitar tudo e todos. Faço o que eu gosto, converso com todo mundo e trato todos iguais.

Minhas metas ainda não acabaram, então tenho muito tempo para ficar viva.
 

Como estou agora?

Hoje estou na minha melhor forma, feliz!!! Sorrindo como sempre, este é o segredo da felicidade, sorrir e amar. Minha filha já tem 6 anos e meu trabalho é um desafio diário onde adoro tudo que faço. Quando ocorre algo que não gosto, não aceito e se não puder mudar, saio de cena, simples assim.

Problemas….todo mundo tem. Se estiver ao meu alcance eu faço o que for necessário para resolver. Se não depender do meu esforço, eu deixo o tempo cuidar, pois tudo tem o seu tempo.

Adoro ouvir música, quando sinto que estou meio desanimada, escuto minha coletânea e tudo se resolve.

Claudia Souza Lima é bancária, analista de negócios, casada e tem uma filha, a Emilly de seis anos. Ela mora em São Paulo e teve câncer de mama.

%d blogueiros gostam disto: